A violência contra a mulher não se manifesta apenas nos lares, nas ruas ou nas estatísticas do feminicídio, mas também se instala em gabinetes, plenários, universidades, conselhos, repartições públicas, sindicatos, partidos políticos e em todos os espaços onde mulheres ousam exercer liderança, inteligência, autonomia e poder. Trata-se de uma enfermidade social crônica, estrutural e multifatorial, que compromete a saúde da democracia e corrói os fundamentos éticos da vida coletiva.
Na política e em outros espaços instituídos, essa violência assume formas silenciosas e destrutivas, revelando-se na tentativa de desqualificar a competência feminina, no ataque à aparência física, na interrupção da fala, na subestimação da capacidade de compreensão, no isolamento, na exclusão dos processos decisórios, na desconfiança sobre a liderança das mulheres e nas campanhas de difamação que buscam destruir reputações construídas ao longo de décadas.
A mulher que ocupa espaços de poder frequentemente passa a ser tratada como um “corpo estranho” dentro de estruturas organizadas para privilegiar a presença masculina. Mas é preciso reconhecer que essa lógica também pode ser reproduzida por mulheres que, ao alcançar posições de mando, administram com as normas do machismo estrutural, promovem homens que vestem gravatas democráticas sobre camisas manchadas pela violência ou se aliam a falsas narrativas de defesa dos nossos direitos. Em termos da saúde coletiva, é como se instituições inteiras rejeitassem um transplante necessário à sobrevivência democrática.
A violência política de gênero opera como uma epidemia social naturalizada. Seus vetores múltiplos passam pelo machismo estrutural, misoginia, cultura patriarcal, desigualdade econômica, concentração histórica de poder, abuso do poder econômico e patrulhamento ideológico; sintomas que aparecem na linguagem agressiva, no assédio moral, no etarismo, nas ameaças virtuais, na invisibilização intelectual e na tentativa permanente de silenciamento, práticas que adoecem mulheres que se dispõem a ocupar a vida pública.
Neste cenário, ansiedade, depressão, esgotamento psíquico e sofrimento moral tornam-se consequências frequentes de relações institucionais violentas. Em diversas situações, o ataque não mira apenas a mulher líder, mas também sua família, sua trajetória acadêmica ou política, sua vida privada e sua identidade social. Trata-se de uma estratégia de intimidação coletiva que pune uma mulher para impedir que outras avancem.
No campo da saúde coletiva, ensinamos e aprendemos que não se combate uma epidemia apenas tratando suas consequências, faz-se necessário agir sobre seus determinantes sociais. O mesmo ocorre com a violência contra as mulheres na política e nos espaços de poder em quenão bastam discursos protocolares em datas comemorativas, mas sim construir mecanismos permanentes de prevenção, vigilância, acolhimento e responsabilização.
A primeira estratégia de superação dessa doença social é a educação, vacina civilizatória contra o autoritarismo e a misoginia. Nenhuma sociedade supera a violência de gênero sem formar crianças e jovens para a cultura do respeito, da igualdade, da convivência democrática, da promoção da paz e da não violência. A segunda, é fortalecer redes institucionais de proteção às mulheres em partidos políticos, universidades, parlamentos, hospitais e unidades de saúde, sindicatos e outras redes, com protocolos e diretrizes de enfrentamento ao assédio e à violência política de gênero. É preciso romper o silêncio institucional que funciona como ambiente propício à proliferação dessa patologia social.
Também é urgente ampliar a presença feminina nos espaços de decisão, pois democracias saudáveis necessitam de diversidade, pluralidade e participação efetiva das mulheres na formulação das políticas públicas. Quando ocupamos posições de liderança, ampliam-se agendas relacionadas ao cuidado, à equidade, à proteção social e à defesa da vida.
No vocabulário da saúde coletiva, sociedades mais igualitárias possuem melhores indicadores de saúde democrática. Já os ambientes marcados pela misoginia institucional revelam sinais de necrose ética, intolerância e degradação das relações humanas. A violência contra as mulheres na política não é um problema individual. É uma doença social que compromete as instituições, enfraquece a democracia e empobrece o debate público.
Combatê-la exige coragem coletiva, compromisso ético e ação permanente, pois nenhuma mulher deve ser atacada por exercer liderança e/ou capacidade em gerir os bens públicos. Não podemos continuar pagando, com sofrimento psíquico, humilhação e violência, o preço de ocupar espaços que também nos pertencem por direito e por conquistas históricas. Uma sociedade verdadeiramente saudável não teme suas mulheres fortes, reconhece nelas parte essencial da cura civilizatória de que o mundo contemporâneo tanto necessita.
Fátima Sousa – Professora titular do Departamento de Saúde Coletiva e ex-superintendente do Hospital Universitário da Universidade de Brasília.


